Liazid Benarab
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Artigo Casais e famílias

Nem sempre é o outro:
às vezes é a cultura

Num casal de dois países, muitos desentendimentos não são sobre o que parecem ser. O que se discute como falta de consideração ou frieza é, com frequência, a colisão silenciosa de dois modos de fazer família.

Liazid Benarab
Psicanalista e psicólogo · Atendimento em francês e português · Online, de qualquer país · Consultório presencial no Brasil
Conversar sobre isso
O que costuma estar em jogo

Dois modos de fazer família na mesma casa

Cada pessoa traz um roteiro invisível: quanto se fala alto, o que se resolve em público, quanto a família de origem participa, como se demonstra afeto, o que é gasto e o que é poupado, quanto tempo se passa junto, como se briga e como se faz as pazes. Enquanto o roteiro é o mesmo dos dois lados, ninguém precisa explicá-lo.

Quando os roteiros são diferentes, cada um interpreta o comportamento do outro segundo o seu próprio código — e conclui coisas sobre o caráter dele. "Você não se importa." "Você é invasivo." "Sua família manda demais na nossa vida." São leituras honestas feitas com a régua errada.

Há ainda um desequilíbrio de fundo que raramente se nomeia: um dos dois está no seu país, com sua língua, sua família e sua rede — o outro perdeu tudo isso ao se mudar. Essa assimetria atravessa todas as decisões do casal, mesmo as pequenas.

Temas frequentes
Em que país viver
Uma decisão que nunca se fecha e volta a cada crise, com culpa dos dois lados.
A língua da casa
A língua do casal, a das crianças, a que se usa para brigar — e o que se perde ao não brigar na sua.
As duas famílias
Expectativas opostas sobre presença, distância, obrigações e feriados.
Assimetria de esforço
Quem migrou refaz vida, carreira e amizades; quem está em casa não vê o tamanho disso.
Criar os filhos
Autoridade, autonomia, escola, religião: dois modelos que ninguém discutiu antes.
Identidade das crianças
Filhos que recusam ou reivindicam uma das línguas — e o que isso diz da casa.

Filhos que crescem entre culturas

Crianças criadas entre dois países costumam desenvolver uma sensibilidade rara para o não-dito e para a diferença. Também carregam tarefas silenciosas: traduzir para os pais, mediar entre os avós, saber em que língua se fala com cada visita, explicar na escola de onde vêm.

Na adolescência, a pergunta sobre a origem volta com força — e às vezes na forma de uma recusa: da língua da mãe, da comida do pai, do país das férias. Não é rejeição do vínculo; é uma tentativa de decidir por conta própria de onde se é.

Como trabalho isso. Atendo individualmente — a pessoa que migrou, ou o pai ou a mãe que quer entender o que se passa em casa — e, quando faz sentido, o casal, com uma escuta que não toma nenhum dos dois códigos culturais como o normal.

Falo francês e português, e conheço por dentro as duas gramáticas familiares. Isso permite reconhecer rapidamente o que é diferença cultural, o que é história de cada um e o que é conflito do casal — três coisas que, misturadas, deixam qualquer discussão sem saída.

Quando procurar

Sinais de que a diferença virou impasse

A mesma discussão volta há anos com palavras diferentes
Um dos dois sente que sacrificou muito mais pela relação
A decisão sobre onde morar paralisa todos os outros planos
As famílias de origem se tornaram um terreno de guerra
Vocês pararam de falar na língua em que se apaixonaram
Os filhos recusam uma das línguas ou uma das origens
Perguntas frequentes

« É a gente, ou é a diferença de cultura? »

Como saber se nossas brigas são culturais ou pessoais?

Na maioria das vezes as duas coisas estão misturadas, e é essa mistura que deixa a conversa sem saída. O trabalho começa por separar o que vem da cultura, o que vem da história de cada um e o que vem do próprio casal.

Meu companheiro não quer fazer terapia: posso ir sozinho?

Sim, e isso é muito comum. Entender a própria parte na dinâmica costuma mudar a dinâmica.

Em que língua criar nossos filhos?

Não existe uma regra única, mas cada escolha tem consequências. É um assunto que merece ser falado, em vez de decidido pelas circunstâncias.

Como decidir em qual país morar?

Essa decisão raramente é logística. Ela envolve o lugar de cada um, o que um abre mão e o que o outro mantém — daí a dificuldade de encerrá-la de vez.

E quando a família do outro interfere no casal?

As expectativas sobre presença e obrigações familiares variam muito de uma cultura para outra. O que de um lado é vivido como invasão, do outro pode ser vivido como um dever elementar.

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